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Quinta, 03 Dezembro 2020 10:32

"O Capitão" mostra a selvageria como estratégia de sobrevivência

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"O Capitão" está disponível na plataforma Film "O Capitão" está disponível na plataforma Film Divulgação

Até que ponto o homem pode abrir mão de seus princípios e crenças morais em busca da sobrevivência? O quanto ele pode ser cruel, ao ponto de subjugar e até matar outras pessoas, apenas para desempenhar um papel e com isso escapar de um destino trágico? São perguntas difíceis de responder, principalmente quando as situações são extremas. Baseado em uma história real, o filme franco-germânico-polonês “O Capitão” (1h58min) levanta a discussão sobre os limites da crueldade.

Em abril de 1945, duas semanas antes de terminar a Segunda Guerra Mundial, ocorrem os fatos de “O Capitão” (Der Hauptmann no original). Com a direção de Robert Schwentke, o filme apresenta o drama de Willi Herold, um soldado de baixa patente, que que está desertando da linha de frente do exército alemão, assustado com a possibilidade de ser capturado e responder com a vida pelo crime de deserção. Porém, ele encontra um carro militar abandonado com o uniforme de um capitão dentro, que ele veste desesperadamente, certo que na condição de oficial poderia escapar da corte marcial.

A fotografia em preto e branco e a trilha sonoroa oferecem uma pegada quase apocalíptica ao filme. O soldado fugitivo Herold, interpretado pelo ator Max Hubacher, quase passa fome. Mas é quase automática a mudança de postura que o cabo sofre. Ele passa a agir como um completo insensível, dando ordens a todas as pessoas que olham baixo para ele, reconhecendo a autoridade que a nova roupa lhe confere, quase sempre humilhando e destratando todos os que encontra, encenando ser superior, talvez também por se julgar da "pura raça ariana". Ou pelo menos fingir que ainda acredita nessa superiodade, às vésperas da derrocada do nazismo.

O roteiro do próprio diretor tem algumas peculiaridades. A mudança de comportamento do personagem central é feita de maneira tão perfeita e rápida que nos leva a perguntar se é da natureza humana se corromper tão facilmente pelo poder, ou se aquela roupa lhe confere propriedades que deturpam o modo de operar de quem a veste.

A questão é que ele possui limites  que são ultrapassados durante a encenação do personagem. Os soldados do exercito, às vésperas do caos provocado pela derrota da Alemanha, também precisam de uma figura de autoridade para obedecer. Sozinhos, são incapazes de ir à frente com as atrocidades que cometem. A relação ali é de dependência mútua, onde a autoridade dá as ordens cruéis e os subordinados a bajulam e essa relação de poder corrompe ambas as pontas do cabo de guerra estabelecido ali.

O filme de alguma forma também retrata a bandalidade do mal, citada na obra da filósofa e jornalista judaica Hannah Arendt, onde as pessoas procuram justificar a brutalidade interior transpassada ao mundo exterior como um mero "cumprimento de ordens". É possível até se fazer um paralelo ao momento presente, quando a política vem sendo superada pela desumanização do outro que não pactua com as suas mesmas visões de mundo. “O Capitão” está disponível na plataforma de streaming Film (https://www.filmin.pt/filme/o-capitao).

JS

 

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